O governo Bolsonaro e o mal-estar dos livros: da “limpeza ideológica” ao acervo bibliográfico da Fundação Palmares

Desde a taxação nos livros até as falas polêmicas do presidente da fundação Palmares, o atual governo vai de mal a pior na relação com os livros. A gota d’água veio com a extinção de 300 títulos considerados inconvenientes pela pesquisa realizada por profissionais atuantes no Centro Nacional de Informação e Referência da Cultura Negra (CNIRC).

O atual governo apela para um autoritarismo semelhante ao causado pelo nazismo. Podemos relembrar a queima de livros de 1933, onde obras valiosíssimas de grandes nomes – como Sigmund Freud, Karl Marx, Albert Einstein e Friedrich Nietzsche – viraram pó, por ordem de Adolf Hitler.

Não que a época passada justifique tais danos, mas viver uma situação praticamente semelhante em pleno século XXI chega a causar certo espanto. O próprio presidente da Fundação Palmares, Sérgio de Camargo chegou a dizer que não deveria existir o dia da consciência negra. Segundo ele, esse dia é dedicado ao “preto babaca”, além de dizer que “esse preto é um idiota útil a serviço da pauta ideológica progressista”.

Com um presidente claramente oposto à pauta do Movimento Social Negro, o acervo cultural bibliográfico da Fundação Palmares perdeu toda a identidade com a população negra no Brasil. Isso porque decidiram, através de um levantamento fundado em leituras apressadas e tendenciosas, que 300 títulos serão banidos do acervo.

A base de argumentos para justificar tais extinções são as mais chulas e inacreditáveis, com uma abordagem autoritária na relação entre literatura e público. Segundo esses profissionais, os livros de “dominação marxista” e “pautadas pela revolução sexual” deverão ser descartados da biblioteca da fundação.

Quando mencionados os autores aos quais as obras expurgadas pertencem, aparecem nomes como Simone de Beauvoir, Karl Marx, Max Weber, Erick Hobsbawn, Octavio Ianni, Nelson Werneck Sodré, Émile Durkheim, Raymond Aron, Caio Prado Jr., Jacob Gorender, Celso Furtado, Nicolai Bukharin e Antonio Gramsci. 

Quando a Fundação foi questionada sobre que fim levarão essas obras, apenas disseram que os livros excluídos serão doados. Depois de tantos acontecimentos improváveis, não seria de espanto se, mais cedo ou mais tarde, aparecesse em algum lugar a mesma cena de 1933.

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