Discursos intelectuais, Produção de subjetividades e Racismo

Por Roberta Federico, autora de “Psicologia, Raça e Racismo: uma reflexão sobre a produção intelectual brasileira” (Telha, no prelo).

Temos acompanhado diversas manifestações ao redor do mundo, motivadas pela indignação diante de repetidos casos de violência policial contra pessoas negras.

Em escala global, nos últimos dias, o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em português) conseguiu mobilizar grandes manifestações da comunidade negra em repúdio à morte de George Floyd, homem negro que morreu asfixiado por um policial branco, mesmo estando desarmado e não oferecendo resistência. O caso ocorreu poucos dias após a morte de João Pedro Motta, assassinado dentro da própria residência, no Complexo de Favelas do Salgueiro, na cidade de São Gonçalo (RJ).

O que os casos têm em comum é o fato de ambas as vítimas serem do sexo masculino e negras, e os acusados serem policiais. As semelhanças se encerram quando se inicia uma comparação entre as reações da comunidade negra nos Estados Unidos e no Brasil. Sendo menos de 15% da população americana, o que explica tamanha intensidade e visibilidade às manifestações da comunidade negra de lá, quando comparadas ao contexto brasileiro, composto por mais de 50% da população total?

Retirado do site G1 Globo

Segregação no Brasil

Algumas das pistas estão no sentido de entender os processos psicossociais envolvidos em políticas raciais aparentemente diferentes mas com resultados semelhantes na manutenção das desigualdades raciais. Por um lado temos uma sociedade que utilizou a política da segregação racial, em que pessoas brancas e pessoas negras não poderiam frequentar os mesmos espaços.

E é importante dizer que essa política fortaleceu o senso identitário da comunidade negra que, com isso, passou a acumular experiências históricas na luta pelos direitos civis. Por outro lado, tivemos no Brasil estratégias como: a política de embranquecimento, a propaganda intensiva de uma democracia racial e um discurso permanente de negação da existência do racismo, ainda que dados estatísticos desmentissem toda essa fantasia. 

Subjetividades negras

O livro “Tornar-se Negro” (1983), da psicanalista Neusa Santos Souza, traz histórias de seus pacientes relatando situações em que foram confrontados com o racismo no cotidiano e como estas foram elaboradas por eles. É importante entender que no Brasil da segunda década do século XXI, em que um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos, muitas pessoas ainda estão no processo de reconhecimento e valorização de suas raízes negras. Nesse contexto, é difícil mobilizar e sustentar manifestações similares às que aconteceram nos Estados Unidos.

Psicologia, raça e racismo: uma reflexão sobre a produção intelectual brasileira de Roberta Maria Federico

Da produção de discursos

A Psicologia e os discursos intelectuais formam importantes bases para a compreensão das dinâmicas raciais, no Brasil e fora dele. O livro Psicologia, raça e racismo: uma reflexão sobre a produção intelectual brasileira, em vias de publicação pela Editora Telha, faz um levantamento das produções intelectuais no campo da Psicologia e das Relações Raciais que foram conduzidas no Brasil nos últimos anos, e discute se os discursos mobilizados nelas são realmente emancipadores no sentido da superação das desigualdades raciais e da reparação dos danos causados pelo racismo.

A obra tem previsão de lançamento em novembro, durante o mês da consciência negra, e é possível reservar durante a pré-venda em andamento.

Roberta Maria Federico é mestra em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente é diretora do Núcleo de Psicologia Educacional da Secretaria de Educação da Prefeitura Municipal de Itaboraí e do Instituto Sankofa, projeto voltado para a prática clínica e a formação continuada teórico/vivencial no campo da Psicologia, Psicologia Africana, Saúde Mental e Bem Estar.

Deixe um comentário