Em verdade, a soberania do detalhe constitui um modo segundo o qual todas as coisas mostram ter uma clara equivalência entre si naquilo que as diferencia umas das outras: o tempo, o lugar, as próprias coisas. Sob o efeito luminoso da criação redentora, as distâncias temporal e espacial, bem como as noções desse ou daquele objeto, desaparecem: isso porque são recolhidos ao seio da Ideia, um por um, todos os extremos. Na embriaguez do flanador, portanto, a soberania do detalhe há de transformar a conjugação do passado com o presente, entre outras, em uma expressão de caráter universal, já que o flanador se deslocaria sem sair do lugar. E é a universalidade das coisas que as faz objeto da história: o sentido histórico de algo é, pois, aqui e agora, sua historicidade mesma. (p. 93)
Viga mestra: escritos de literatura, filosofia e arte
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É possível chegar a um meio-termo teórico nos estudos relativos aos objetos da literatura e da arte? De quais ferramentas a filosofia ou a pesquisa de cunho especulativo, mas não abstrato, pode se servir para atingir uma tal centralidade, como uma viga que se vê tensionada por polos diametralmente opostos? Eis a natureza deste livro: a de quem busca, na configuração de uma unidade sintética nunca acabada, a possibilidade de se achar a meio caminho do fenômeno e da ideia. Mas a noção de um meio-termo em si não passa de pura inspiração romântica, própria de um “processo infinito de aproximação”. Em Viga mestra, o termo do meio, ainda que central, há de oscilar, sem que ceda, em momento algum, a nenhum dos extremos implicados.



