Os motéis e o novo coronavírus

Por Jérôme Souty, autor de “Motel Brasil: uma antropologia contemporânea” (Telha, 2019).

É comum ouvir que o setor dos motéis não conhece a crise; já ouvi também algumas vezes a afirmação definitiva segundo a qual: “[no Brasil] farmácia, igreja e motel são negócios sérios!”

No começo de março de 2020, no rumor da pandemia, mas antes da chegada efetiva da onda de coronavírus no Brasil, observou-se em certas regiões (pelo menos no Rio de Janeiro) um estranho movimento de aumento da frequência dos motéis, que, inclusive, parecia confirmar a ideia que esse setor é imune a crise.

Mas foi uma dinâmica de curta duração, e desde que o período de isolamento começou de fato, assim como os outros setores econômicos, a indústria nacional dos motéis sofreu bastante. Houve uma redução importante dos números de hóspedes, alguns estabelecimentos relatam ter perdido até 50% ou 70% do movimento e outros encerraram seus atendimentos. Porém, a incitação ao confinamento não afastou completamente os clientes dos motéis brasileiros.

Serviço essencial”?

As medidas públicas de isolamento social mudam em função dos estados e dos municípios. Em geral os motéis, sem a obrigação legal de fecharem, foram incitados a evitar aglomerações. O Estado de São Paulo, o mais atingido (por enquanto) pela expansão do vírus, é também o Estado que conta com a maior indústria moteleira do país (em torno de 1.200 estabelecimentos).

Ora, segundo uma reportagem da Folha de São Paulo, durante a quarentena a maioria dos estabelecimentos paulistas segue permitindo a entrada de clientes, até mesmo para festas privadas com muitas pessoas. “Motéis continuam firmes na pandemia e, apesar de alertas, aceitam aglomeração” anuncia a reportagem no seu título. Entretanto, outros motéis paulistas adotaram uma postura mais restritiva e reduziram o número máximo de ocupantes nas suítes a 3 pessoas, ou as fecharam.

Também no Rio de Janeiro é fácil conferir que parte dos motéis estão abertos durante a pandemia e, provavelmente, a situação se repete no resto do país. Nesses tempos de “confinamento” não é difícil reservar uma suíte e até uma suíte coletiva, e muitos motéis oferecem essa última opção.

Como deixa claro a pesquisa que resultou no livro Motel Brasil. Uma antropologia contemporânea,  já sabemos que o motel, devido à sua importância socioeconômica e simbólica, representa uma verdadeira “instituição” brasileira. Aparentemente, alguns clientes acham que o motel é um espaço indispensável também em período de quarentena. Será que esse estabelecimento pode ser categorizado como “serviço essencial” durante a pandemia?

Distanciamento social

Os motéis, em tempo normal (sem coronavírus), já aplicam o princípio de “distanciamento social”. Buscando o sigilo e a proteção da intimidade dos clientes, sua própria arquitetura é projetada e pensada para o isolamento e anonimato. Os quartos têm um acesso exclusivo e não se comunicam. Na maioria dos estabelecimentos, não há contato físico direto com nenhum empregado. Os edifícios são concebidos para que ninguém se cruze (no máximo atrás do vidro do balcão da recepção), nem se aproxime (presença de uma antessala ou de um sistema para passar as encomendas através da parede da suíte).

Com as autoridades sanitárias a procura de estabelecimentos de hospedagem para viabilizar o isolamento de parte da população mais vulnerável, as particularidades arquitetônicas do motel o tornam um lugar possível a ser requisitado pelas autoridades. Além disso, para atrair e fidelizar os clientes, os motéis sempre foram rigorosos com a higienização das suítes.

Casais e “aglomerações”

Nessas condições, podemos pensar que, para os casais que já se conhecem e se frequentam, uma ida ao motel não aumenta a priori o risco de transmissão do vírus. Porém, e apesar de todo o cuidado possível com a higiene e o distanciamento social, alguns especialistas em saúde pública apontam o fato que a suíte de motel é um lugar de turn-over e que isso representa um fator de risco.

Por outro lado, com a epidemia, os motéis que continuam abertos afirmam estarem tomando medidas de prevenção específicas. As medidas de higiene podem de fato ser reforçadas: esterilização das suítes com álcool e água sanitária; distribuição de álcool em gel na entrada dos hóspedes; quartos sendo fechados para ninguém usar o mesmo local em menos de 24h; afastamento dos corpos entre clientes e funcionários ainda mais reforçado.

No caso de ser o primeiro encontro do casal (sexo casual, sexo pago etc.) ou mais ainda no caso de festa grupal, o risco de transmissão do vírus com certeza está presente. A Associação Brasileira de Motéis (ABM) faz questão de salientar que os estabelecimentos, por padrão, são locações para casal e que, durante a pandemia, os estabelecimentos com suítes para festas tiveram o seu uso suspenso.

Esses comentários refletem a opinião da maioria dos profissionais dos motéis de luxo, em particulares os de São Paulo e da região sul. Já há alguns anos eles tentam mudar, com certo sucesso, a imagem transgressiva que continua sendo associada aos motéis. Pois a representação dominante, desde o final dos anos 1960, faz do motel um lugar da sexualidade liberal e hedonista, um lugar privilegiado da “sacanagem”, do adultério, de práticas sexuais minoritárias, desviantes ou pagas. De fato, é justamente porque a arquitetura e a organização sócio espacial do motel garantem um perfeito sigilo e isolamento aos seus clientes que muitos dos usuários procuram esses estabelecimentos.

Contudo, esses profissionais moteleiros afirmam que a imensa maioria dos seus clientes são casais legítimos e estabelecidos – casados ou namorados – querendo usufruir um espaço confortável, moderno e luxuoso. A proposta comercial, a nova tendência, seria então oferecer a esses casais “estáveis” uma nova e completa experiência de lazer, de consumo e de entretenimento, que ultrapasse a simples dimensão sexual.

Nessa perspectiva, o nome “motel” é geralmente substituído por “resort hotel”, “suítes”, “spa”, “motel design” ou “motel boutique”. Esses estabelecimentos capricham no cenário (piscina com cascata, hidromassagem, teto solar retrátil, sauna, bangalô, pole dance…) e na aparelhagem técnica (ar-condicionado, wi-fi, som, frigobar…), oferecendo uma ampla gama de serviços como refeições gastronômicas e bebidas finas, cuidados ao corpo, ambientes diversos, pacotes de serviços à la carte e decorações personalizadas.

Heterotopia

O motel brasileiro já é um exemplo perfeito de “heterotopia” (no sentido de Michel Foucault), ou seja, uma utopia realizada, um “lugar outro” – marcado pela extraterritorialidade e por uma outra temporalidade – nesse mundo. Uma virada no motel representa assim um parêntese, uma possível fuga da realidade. Interessante observar que, com a pandemia atual, a dimensão heterotópica do motel é de certa maneira reforçada.

Quando praticamente toda a cidade está parada, fechada ou interditada, e quase não há mais lugar de encontro e de diversão que não seja a habitação particular, a suíte de motel continua oferecendo uma escapatória possível, tanto discreta quanto confortável. Dependendo dos usos dos clientes e do caráter da suíte (coletiva ou limitada a um casal), esta fuga pode ser considerada relativamente segura em termo de contaminação pelo vírus. 

Jérôme Souty, antropólogo francês radicado no Rio de Janeiro, autor de Motel Brasil, uma antropologia contemporânea (editora Telha, Rio de Janeiro, 2019), leva em seu livro e pesquisa o motel à categoria de objeto cultural e social, e de “instituição” nacional representativa. Onipresentes nas paisagens urbanas, frequentados por uma grande maioria da população, os motéis no Brasil representam um setor econômico importante. Eles atravessam o imaginário urbano contemporâneo.

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