Durante dois anos, um grupo de oito pesquisadoras, coordenado por Rosa Carneiro, esteve junto a outras tantas mulheres-mães, muitas delas negras, moradoras da periferia de Brasília – mais especificamente de três bairros de São Sebastião, cidade-satélite cuja história urbana e de mobilização social se diferencia das demais –, buscando compreender os impactos da pandemia de Covid-19 em suas vidas cotidianas e as estratégias por elas mobilizadas para sobreviver e cuidar de suas crianças. Trata-se, portanto, de uma pesquisa que, mais além de mobilizar dados sociodemográficos e sanitários, territoriais e históricos, se fez no encontro e na colaboração com estas mulheres, em fóruns comunitários, em rodas de conversa e cafés da manhã, em atividades culturais, em grupos focais e entrevistas, articulando múltiplas estratégias, modos e fontes de investigação no delineamento de um estudo de caso a um só tempo situado e multiescalar.
Esse é um dos aspectos fundamentais, a meu ver, do conhecimento que se apresenta neste livro: ser uma elaboração eminentemente coletiva, entre universidade e território, desde uma configuração metodológica social e territorialmente referenciada, na qual a construção processual dos objetivos e questões de pesquisa não é dissociável do território e das pessoas com quem esse conhecimento se produz, e que, no trânsito investigativo que os articula a dados e teorias, almeja incidir em políticas públicas e inspirar ações coletivas em escala local e nacional.
As autoras se propõem a refletir radicalmente, escavando memórias e narrativas desde a “vida miúda” e “encarnada”, navegando um “campo de tensões” desde o trauma, as recusas e os interditos que decorrem das “urgências do cuidado” (às quais, elas constatam, a pandemia apenas se soma, menos como excepcionalidade do que como agravo). São reflexões que conectam São Sebastião e suas mulheres às tramas do cuidado como sobretrabalho feminino, às múltiplas camadas de precarizações politicamente induzidas, mas também a outras dimensões comunais de urbanidade, sociabilidade e atenção à saúde e à vida que desafiam normatividades e legibilidades institucionais, buscando, em “rastros e restos”, indícios (mais além dos indicadores) para políticas públicas territorializadas que não se limitem a uma gestão territorial da pobreza.
(Sobre)Viver na pandemia: mulheres, margens e cuidado em São Sebastião – Distrito Federal
R$69,00
É consistente esta pesquisa sobre a resistência das mulheres de São Sebastião durante a pandemia. O recorte relativo às mulheres negras agudiza a falta do Estado. Ao tempo em que a sobrecarga de trabalho se dá pelo isolamento e perda dos empregos, a condição de gênero impõe intensificar o cuidado dos filhos, da casa, da sobrevivência. Desnuda-se a falha de políticas públicas, sejam para apoio ao cuidado, sejam estruturais. Baseado em intelectuais como Darcy Ribeiro, o viés antropológico denuncia os atos e omissões dos governos Bolsonaro e Ibaneis. Contudo, a adversidade leva a uma rede solidária. A sororidade na periferia da Capital do país reforça a luta pelos direitos das mulheres e crianças. A crítica ao machismo é um resultado a mais dado pela notável competência das autoras.


