Este é um livro que nos presenteia com a delicadeza das memórias acerca “dos que foram sem jamais ir”: Davi, Israel, João Sérgio, Maria do Socorro, Helenildo, Narril, Hugo, Laura e Marly. Nas palavras de quem os homenageia, cada um destes nomes carrega a imensidão do existir, as possibilidades, a graça e o sonho que se perpetuam em outras vidas que, generosamente, se dispuseram a compartilhar seu luto sem nele se encerrar. Wanise, também sujeita das afetações traumáticas provocadas pela pandemia de covid-19, atua como mediadora das vozes que se propõe a contar. A autora se posiciona como pesquisadora competente e sensível, comprometida, política e amorosamente, com o registro e a publicização de memórias que se façam soar em busca de uma comunidade de testemunhas e ouvintes. Assim, objetos e espaços nos são apresentados por quem narra; ressignificados pelo afeto, pela saudade e pela permanência mnemônica de quem partiu. As palavras potentes, nascidas do diálogo atento e acolhedor, contribuem para reencenar momentos do cotidiano: a comida, a igreja, a pesca, a canoa, o futebol, o bolo de fubá, os netos… O sorriso! Há, neste livro, a possibilidade de nos curarmos pela presença reconstruída do irmão, do filho, do pai, da mãe, do companheiro. Wanise e sua comunidade afetiva nos ensinam que as palavras são instrumentos potentes para nos reconstruirmos e nos reunirmos, na forma de homenagem e de celebração da vida daqueles e daquelas que ainda residem em nós. Somos recomeço.
Tudo o que fica é memória: uma (re)construção das histórias de vida de vítimas da covid-19 em colaboração com familiares e suas lembranças
R$59,00
Ainda que a covid-19 esteja hoje sob controle, as perdas e consequências práticas e psicológicas trazidas pela pandemia que assolou o mundo a partir de 2020, e causou mais de 700 mil mortes no Brasil, mostram a necessidade de continuarmos em busca de sua compreensão enquanto fenômeno social de impacto. Este livro, escrito a partir de uma tese de doutorado defendida no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo em 2025, busca contribuir com esse processo por meio de uma reflexão sobre o direito à memória e o compartilhar de histórias de vida como ato de resistência. Dividido em quatro partes, o trabalho retrata a investigação de caráter exploratório da jornalista e pesquisadora Wanise Martinez junto a oito colaboradores que perderam entes queridos para a covid-19. Gracielli Fiorante; Cléia Medeiros; Jaciara Maria Lima de Barros; Bianca Pedrosa; Daniela Sousa; Fabíola Cavalcante Bicalho; Deise Couto e Jean Passos aceitaram compartilhar, de maneira generosa, suas lembranças sobre os parentes, desde pequenezas cotidianas até momentos especiais, que levaram à escrita restauradora de nove histórias de vida. Apresentadas em prosa poética, elas ajudam a iluminar o poder curativo das recordações em meio ao luto pessoal e coletivo. A história oral, a literatura, o tempo e os objetos surgem como aliados neste percurso de ordem objetiva, subjetiva e intersubjetiva. A isso, soma-se uma riqueza de referências vindas das mais diversas áreas do conhecimento. As lembranças nos permitem (re)construir pessoas, mesmo diante da dor da perda. Para que aqueles que amamos permaneçam sempre conosco, basta que contemos suas histórias de vida.



