Historiador analisa o imperialismo no século XXI e indica três leituras para entender o nosso tempo.
A crise da democracia liberal tem se aprofundado em diferentes partes do mundo, assumindo formas variadas, mas conectadas por um mesmo pano de fundo: o esgotamento do modelo político e econômico neoliberal. Brasil, Venezuela e Estados Unidos, apesar de trajetórias históricas distintas, revelam sintomas semelhantes: polarização política, fragilidade institucional, avanço da extrema direita e aumento da desigualdade social.
Temas como imperialismo norte-americano, neoliberalismo autoritário, erosão democrática e precarização do trabalho tornaram-se centrais para compreender o cenário político contemporâneo. No entanto, grande parte do debate público ainda trata esses fenômenos de forma fragmentada, sem relacioná-los às contradições estruturais do capitalismo no século XXI.
Para contribuir com uma análise mais profunda e contextualizada, a Telha conversou com o historiador Tiago Salgado, Doutor em História pela PUC-SP, Mestre em História pela PUC-SP e graduado em História pela UNESP. Ao longo desta entrevista, ele analisa como a democracia liberal se constituiu historicamente, por que ela entra em crise no mundo atual e de que maneira projetos autoritários ganham força em meio ao colapso das promessas neoliberais.
Além disso, o historiador indica leituras fundamentais para quem deseja compreender o cenário político e econômico atual, conectando teoria crítica, história e conjuntura.
Telha: O que o cenário político recente Brasil, Venezuela e Estados Unidos revela sobre a crise da democracia no século XXI?
Tiago Salgado: A democracia liberal se constituiu como um “valor universal”, em grande medida, após a II Guerra Mundial, como uma forma de contrapor as experiências tidas como “totalitárias” e o capitalismo liberal em um contexto de Guerra Fria. Dessa forma, nos países centrais, o Estado de bem-estar social se colocou como a forma de conter o avanço comunista e fazer a gestão das crises capitalistas e das lutas de classes.
Na periferia, como a América Latina, a situação se constituiu de forma diferente, uma vez que os EUA passaram a atribuir às experiências nacionalistas um caráter socialista e, consequentemente, apoiar em conjunto com as elites locais, ditaduras civis-militares. Foi nesse contexto que o socialismo democrático chileno e as reformas de base no Brasil foram abortados.
No entanto, com a derrocada da URSS e o esgotamento da Guerra Fria, a partir dos anos 1980, a defesa da democracia liberal chega à América Latina, no entanto, esvaziada de seu conteúdo social, que havia marcado as experiências europeias. Em outras palavras, a redemocratização latino-americana carrega um aspecto neoliberal, no qual, ao mesmo tempo em que as liberdades individuais e direitos políticos são reestabelecidos, os valores concorrenciais e meritocráticos do mercado passam a ser compreendidos como valores “naturais”, o que resulta no avanço do processo de privatização e no esvaziamento do poder de investimento estatal.
As consequências desse processo são variáveis. De um lado, conseguiu reestabelecer uma parcela das taxas de lucro através de um processo de acumulação flexível e estabeleceu uma hegemonia no sentido de construção de sentido de vida e de projeção de futuros possíveis. Por outro lado, gerou um rebaixamento das condições de vida, a precarização e o aumento da desigualdade.
Ou seja, a democracia liberal, que se assenta nos princípios de igualdade, fica restrita ao aspecto jurídico, não se traduzindo de forma ampla na vida material das pessoas. Tal consequência tornou possível a chegada ao poder de correntes políticas progressistas, que apesar de suas particularidades, buscaram gerir os conflitos e as contradições do neoliberalismo.
No fim, como o progressismo acabou, de alguma forma, se apropriando da gramática e dos valores do neoliberalismo (progressista), a extrema-direita reivindicou um caráter transformador, operando uma dialética entre revolução (no sentido social e político) e conservação (da razão de mundo neoliberal). Ou seja…
A extrema-direita opera em um mundo onde a democracia liberal se mostrou incapaz de resolver as crises do capitalismo e os neofascistas se articulam com os interesses do grande Capital para se colocarem como alternativa, mesmo que para isso, seja necessário abrir mão da democracia.
Portanto, nos Estados Unidos, essa crise se manifesta na erosão institucional interna e na radicalização da direita; no Brasil, na persistência de heranças autoritárias e na tutela militar e judicial da democracia; e, na Venezuela, em um processo marcado por conflito geopolítico, sanções e disputa internacional sobre legitimidade. Em comum, está o esgotamento da democracia liberal como forma capaz de responder às contradições do capitalismo contemporâneo.
Telha: A partir de Democracy Delivers, o que o caso venezuelano nos ajuda a entender sobre as formas contemporâneas de intervenção dos EUA na América Latina?
Tiago Salgado: Uma das características mais importantes do neoliberalismo autoritário é que ele perde a sua forma “moral” de legitimação, ou seja, o capitalismo abre mão de qualquer perspectiva social. Nesse sentido, a pandemia do coronavírus é um marco importante nesse contexto, pois políticos como Bolsonaro e Trump publicizaram que, entre salvar vidas e preservar as formas de extração de valor e exploração do trabalho, a vida é descartável.
O mais curioso é que esse discurso ganhou tração entre setores das classes trabalhadoras. Não é a primeira vez na história que isso acontece – pois, nas experiências do fascismo clássico, parcelas das classes exploradas se engajaram no fascismo e em suas diferentes manifestações –, mas demonstrou o tamanho da hegemonia neoliberal, que inviabiliza a projeção de futuros alternativos ao capitalismo.
Nesse contexto de acirramento das lutas de classe, tais contradições se manifestam também nas disputas entre as potências, o que tornou mais evidente os conflitos de caráter imperialistas. No caso dos EUA e da América Latina, o imperialismo sempre norteou tal relação, desde o surgimento da Doutrina Monroe no início do século XIX.
Diferentemente do que uma parcela da classe acadêmica defendeu durante boa parte dos anos 2000, os EUA nunca abriram mão de sua ingerência na América Latina, entendido como sua área de influência natural, mas que no contexto atual, se manifestou de forma clara quando governo Trump intensificou a política de sanções, reconheceu um governo paralelo e passou a operar abertamente pela deslegitimação internacional do governo venezuelano, deixando claro que a defesa da democracia era secundária frente aos interesses estratégicos e econômicos dos EUA. E mais, afirmou que os EUA iriam administrar a Venezuela e que a convocação de eleições não estava no horizonte, pois poderia resultar na chegada ao poder de forças políticas que não estão completamente subjugadas aos seus interesses.
O recado que os EUA passaram para a América Latina e, principalmente, para seus “competidores” como Rússia e China, é que se necessário usarão da força para garantir sua posição hegemônica e sua área de influência. Isso vale para o contexto de disputas intercapitalistas e para a correlação de forças sociais e políticas latino-americanas.
No caso venezuelano, como ficou demonstrado no “Democracy Delivers”, a oposição estadunidense ao processo venezuelano diz respeito a tentativa de construir uma alternativa ao neoliberalismo e não a qualquer aspecto comunista, já que em nenhum momento a Revolução Bolivariana se propôs a acabar com a propriedade privada.
Dessa forma, para tentar interromper tal processo, os EUA financiaram um golpe militar em 2002 contra o então presidente Hugo Chávez. Como o golpe foi fracassado, os EUA reorientaram sua ação na Venezuela, buscando organizar o que consideravam a “sociedade civil” para conseguir interromper, dentro da lógica eleitoral, o governo bolivariano, isso por meio do treinamento e do financiamento da oposição.
O que o ataque estadunidense à Venezuela demonstra é que os EUA reorientaram novamente sua forma de ingerência, atuando com formas híbridas de intervenção, que combinam coerção econômica, isolamento diplomático, guerra jurídica e ameaça militar permanente, sem a necessidade de uma invasão clássica contra àqueles países que não estão completamente dentro da lógica americana. Importante ressaltar que tal perspectiva não é nova, uma vez que, como é apontado no livro, a análise da documentação já demonstrava que era uma possibilidade e que mantinha a Política Externa dos EUA e sua postura imperialista.
Telha: Em Rumo à barbárie neoliberal, você analisa a ascensão de projetos autoritários. Qual a relação entre neoliberalismo e o avanço da extrema direita?
Tiago Salgado: “Rumo à barbárie neoliberal” é um livro pensado no “calor do momento” e tem uma perspectiva ensaística, apesar de ser composto por artigos acadêmicos. Dessa forma, o objetivo é trazer a discussão acerca do neoliberalismo para àqueles que, como eu, são trabalhadores, acordam cedo, precisam pagar boletos e vivem no constante temor da demissão e da precarização. Tudo isso ao mesmo tempo em que somos bombardeados pelo discurso meritocrático e empreendedor, que responsabiliza o indivíduo pelos constantes “fracassos” que são inerentes ao sistema capitalista, em especial em sua fase neoliberal.
Em linhas gerais, o argumento geral do livro se relaciona com um aspecto teórico, de que o neoliberalismo se constitui como uma forma de totalitarismo, buscando englobar todas as formas de sociabilização. Aqui busquei chamar a atenção para dois pontos, o primeiro é sobre a própria categoria de totalitarismo, que foi construída para aproximar o regime soviético e o nazismo, elegendo características em comum entre eles e deixando de lado suas importantes diferenças. Dessa forma, para essa primeira categorização, se o comunismo e o nazismo são totalitários, resta apenas a democracia liberal. Meu objetivo foi buscar reorientar a noção de totalitarismo, que ao ser associado ao neoliberalismo, deixa de ser uma forma de naturalizar a democracia libera e o capitalismo para se tornar uma forma de contestação da barbárie neoliberal.
O segundo ponto é que, sendo uma forma totalitária de sociabilidade, o totalitarismo se manifesta de várias formas, inclusive na subjetividade do indivíduo. Não por acaso o grande número de publicações e pesquisas que versam sobre a verdadeira epidemia de adoecimento psíquico, em especial entre os jovens. Reconhecer que esse fato é uma consequência direta do neoliberalismo nos faz escapar de armadilhas perigosas, sendo que aqui penso na condenação sem restrição de tecnologias como as redes sociais ou as IAs, correndo o risco de adotarmos uma postura luddista do século XXI. Essas em si, não são fonte de sofrimento ou de aumento da exploração e do sofrimento, mas podem ser a depender do uso social que elas possuem. Em uma sociedade neoliberal, tudo é orientado para esse fim, de exploração e concorrência.
Dito isso, o texto demonstra um desconforto com o aumento da precarização no mundo do trabalho e da barbárie que o neoliberalismo impõe como norma social, destruindo qualquer forma de solidariedade entre os sujeitos, entendidos como concorrentes em uma lógica de mercado. A manifestação política dessa lógica é o avanço de forças políticas como Bolsonaro, Trump, Milei, Kast, que são autoritários e fazem a defesa dessa sociabilidade individual e meritocrática, que esvazia o sentido social de qualquer experiência democrática.
Portanto, o neoliberalismo se manifesta de forma autoritária nesse contexto de acirramento social e das lutas de classe, identificando, além das características da sociedade atual, que o retorno à ordem social anterior ao neoliberalismo, ou seja, à construção de um Estado de bem-estar social, não é possível na atual conjuntura, pois foram exatamente as contradições dessa fase do capitalismo que tornaram possível o desenvolvimento do neoliberalismo autoritário. Em outras palavras, se o neoliberalismo ruma para a Barbárie, é necessário conseguir projetar novas formas de sociabilidade: deixar de ser reativo e adotar uma propositura ativa, participando da batalha de ideias, de construção de hegemonia.
Telha: Quais três livros você indicaria para quem quer compreender melhor esse cenário político e econômico atual?

Tiago Salgado: Acredito que a leitura do “Democracy Delivers” é fundamental para o entendimento do momento atual, em especial no que diz respeito à América Latina e sua relação com os EUA. A documentação, disponível no wikileaks, analisada no livro demonstra claramente que categorias como populismo e democracia são instrumentalizadas pelo EUA e pela elite venezuelana com o objetivo de defender os interesses de capitais estadunidenses no país, em especial os que se relacionam com a extração do petróleo. Além do livro apontar as contradições entre os interesses da Revolução Bolivariana e os dos EUA, os limites e tensões que marcam o processo venezuelano também são demonstradas, o que possibilita uma rica análise acerca da correlação de forças sociais e políticas na Venezuela.

Outro livro importante é “The society of the selfie: Social media and the crisis of liberal democracy” de Felipe Ziotti Narita e Jeremiah Morelock. O livro analisa o papel das redes sociais nas formas de sociabilização contemporâneas, em particular na construção de uma sociedade gerencial, que se articula com valores fundamentais para o neoliberalismo, explorando o paradoxo de um mundo hiperconectado que, ao mesmo tempo, fomenta bolhas de eco, o declínio do debate racional e a erosão da democracia liberal. Em suma, o material oferece uma crítica profunda sobre como a mediação por imagens reconfigura a subjetividade moderna e as estruturas de poder contemporâneas. Uma inovação teórica da obra é a utilização da noção de “espetacularização” que marca uma sociedade em que a vida digital e o não digital se confundem, o que carrega consequências políticas e sociais importantes.

Também citaria “A Nova Razão do Mundo: Ensaio Sobre a Sociedade Neoliberal”, de Pierre Dardot e Christian Laval. Na obra, os autores fazem uma recapitulação histórica acerca da construção do neoliberalismo e de como seu objetivo principal é construir uma “razão de mundo concorrencial”, em que todos os elementos da sociedade passam a ser compreendidos como empresas, desde os indivíduos até o próprio Estado.
Telha: Diante desse diagnóstico, que perguntas você acha que precisamos voltar a fazer sobre democracia e justiça social?
Tiago Salgado: Acredito que aqueles comprometidos com uma transformação social devem pensar em qual democracia pretendemos construir. Em outras palavras, pensar, sem preconceitos ideológicos, se a democracia liberal realmente consegue construir possibilidades sociais alternativas.
Outra pergunta importante deve fazer referência à capacidade de inserção do progressismo nas lutas sociais. Os discursos políticos fazem sentido para a classe trabalhadora atual, inserida em uma economia cada vez mais plataformizada e precarizada?
Por fim, o mais importante, e que não é bem uma pergunta, é conseguir fugir do “realismo capitalista”. É necessário conseguirmos pensar e projetar um futuro que seja pós-capitalista, um mundo em que realmente seja possível viver de maneira plena e digna, levando em consideração os desafios climáticos, políticos, sociais. Se for para colocar como pergunta, seria, que sociedade queremos? O capitalismo consegue entregar essa sociedade?
O que essa conversa nos diz sobre democracia, neoliberalismo e futuro
A entrevista com Tiago Salgado evidencia que a crise da democracia não é apenas institucional ou eleitoral. Trata-se de uma crise mais profunda, ligada ao modo como o neoliberalismo reorganizou a economia, o trabalho, as relações sociais e até mesmo a forma como imaginamos o futuro.
Na Telha, acreditamos que discutir democracia, autoritarismo e justiça social exige ir além das narrativas simplificadoras e enfrentar questões estruturais. Abrir espaço para esse tipo de reflexão faz parte do nosso compromisso com a produção de pensamento crítico, com o incentivo ao debate público qualificado e com a circulação de ideias que ajudem a compreender e transformar a realidade.
Em um mundo marcado pelo avanço do neoliberalismo autoritário, pela naturalização da precariedade e pela disputa de narrativas, consideramos fundamental retomar perguntas incômodas, mas necessárias: que democracia queremos construir? Para quem ela serve? E que tipo de sociedade é possível imaginar para além da lógica da barbárie neoliberal?
Seguiremos apostando no diálogo, na leitura crítica e na construção coletiva de sentidos como caminhos indispensáveis para pensar futuros mais justos, democráticos e socialmente sustentáveis.

